domingo, 30 de dezembro de 2012

"Dentro de mim eu quis me ver, tremia dobrado em dois sobre meu próprio poço... noite estranha de amor em que eu me goze e tenha... Lá no fundo do poço em que me espelho!"

       Seria mesmo possível prever o futuro em Cartas de Tarot?
       Seria mesmo tangível o sonho de um poeta ou o calor de um grande amor?
     A jornada não parece mais como um rastro de um animal ferido, e sim, como um céu mutável e incompreensível, sensível apenas aos corações e mentes abertos!

       Mais um fôlego! Mais divagações de um Dragão que não teme ser dissecado ou amado! Nada mais resta desses sonhos a não ser a Ação! O Drama que almeja ser explorado, que não pode ser reconhecido, mas pode ser compartilhado!

     "Os esqueletos de mil mariposas dormem em meu recinto" não eram borboletas, suas asas eram paralelas ao solo, sobre elas, as flores em sua eterna busca em direção à luz.



CAPITULO V
MINHAS ÚLTIMAS GOTAS D’ÁGUA

Meu corpo ainda estava dormente e eu não sabia bem como me movia. Não havia precisão nos meus movimentos, eu mal os sentia. Na verdade, sentia uma mistura nova de novos sentimentos, sabores que ainda não havia experimentado – como um picolé de mirtilo! No frenesi inconstante dessa experiência inusitada transformei meu antigo corpo metálico em uma carruagem de metal e enterrei todos os outros corpos ao meu redor, fiz suas covas em círculo ao redor de uma velha amiga árvore. Exaurido da picada, findei minhas forças nas 32 covas. Com calos nas mãos, queimado de sol, dei início ao primeiro dia de um ano que se chamaria, Trabalho.
No meio de um  florido findo campo de batalha, olhava ao redor a fim de encontrar uma direção, e não encontrava. Não haviam setas, nem mapas, nem rumores, nada que me motivava. Quedei-me ali pensando em todos os lugares que queria conhecer! Em todas as aventuras que poderia vivenciar e nos beijos que daria! Nos sonhos que teria! Nos desejos que... perdi vários anos divagando sem sair do lugar.
Quando num dia de chuva, a tormenta revelou um esqueleto de coruja que eu havia enterrado! Era a Coruja Profana! Que riu de mim,  agora dizendo: Ser ou não ser, eis a questão! Sem saber exatamente o que sentir, ri também! Que absurdo crânio de coruja me cita um fantasma paralítico de um bardo no meio da tempestade!? Dei as costas para a tormenta e disse a mim mesmo: “faça o seu pior”! Descalço e semi-nu, caminhei...!
Sim! Eu caminhei! Simples assim! Sem saber pra onde ou porquê! Eu comecei a caminhar! Sem perceber desci do monte Olimbo, descobrindo que existem flores como copo de leite e taça de vinho, que me despir pode ser uma arte, talvez um ofício, mas me vestir bem tem haver com carinho e não compromisso. Fui descobrindo que qualquer descoberta era uma porta aberta para uma aventura e que essas as aventuras  nem sempre me levavam a algum lugar, dependia se eu queria ir. E, que, por não saber o que queria eu ia pra qualquer lugar! Não necessariamente um lugar feliz!
Aprendi a abrir portas! E deixa-las abertas! E ri muito disso tudo! Muito me diverti! Até descobrir um novo padrão e nele me prendi, novamente parei, agora não mais inerte, mas em movimento, eu achava que estava indo mas não saí do lugar.
De tanto caminhar nos mesmo lugares, com decorações diferentes, amoleci a terra que virou pântano. Alagada com meu suor, lágrimas e sêmen, a terra se umidificava. O odor almiscarado me dava prazer e asco, eu gostava daquela sensação de poder e entrega, sentir o ranço pegajoso das caldas orgânicas nos seus mais profundos gozos! Eram as galas da luxúria que com suas lambidas me pregava sua cola saborosa! Que deleite! Que delícia! Sentia as ondas e os dedos que roçavam em minha pele. Eu soltava baforadas de neblina pelos olhos que diziam ne me quitte pas a toda miserável centelha de vida.
Realmente não sei por quanto tempo fiquei nesse pântano... Sei que minha carruagem de metal se danificou irremediavelmente, mas ainda era muito boa para viajar!


          Nesse mundo orgânico não havia espelhos e eu não tinha um referencial a não ser eu mesmo! Então a memória de mim dançou sobre a relva na forma de um guarda-chuva vermelho, debaixo daquela figura oriental estava Eu no meio de emoções cadentes e decadentes,  sem me molhar. O guarda-chuva me possibilitou ver cada uma de minhas mil faces nas gotas de chuva, mas as gotas não grudavam na minha pele. E vendo uma a uma das minhas faces eu pude retirá-las até a última que eu não encontrei, em nenhuma gota, até a última gota! 

           Chorei, como um menino! Lindo! Chorei de soluçar! Foi tão bonito! O Nariz escorrendo, inchado e vermelho! Que olhos mais brilhantes! E reluzentes, eu não vi... mas as flores e vermes que ali se moviam evoluíram comigo a mais um passo dessa jornada que eu chamava Perigo.



http://www.youtube.com/watch?v=8CkSd5oYi_U





domingo, 20 de novembro de 2011

E o tempo se desfez, mesmo nunca tendo existido!

O divertido de fazer esse blog sem pretenções é que posso experimentar a liberdade de ser honesto!
Esse capítulo eu escrevi logo em seguida do III... mas não publiquei porque ainda estava em dúvida sobre como continua-lo e não queria publicar algo sem continuidade e sem finalização... ME TRAÍ!... Porque o que aconteceu foi exatamente isso! Procrastinei e não escrevi nem publiquei mais do conto... e o tempo se desfez.
No entanto, tenho ganas de continuar a escrever e para continuar preciso abandonar os excessos, desapegar do já feito e seguir mais leve... o peso do passado me paralisa e exatamente agora me desvinculo dele, como um corcel que se solta da carruagem e matreiro escoiceia o ar! 
Segue-se o conto!


CAPITULO IV
EU ERA EU
A manhã despontava e um canto nostálgico de um pássaro raro ecoava timidamente perto de mim. Eu queria viver! Eu queria continuar! Eu queria sair dali! Mais do que nunca eu queria sobreviver e nunca mais voltar ao castelo! Eu não queria que ninguém do reino voltasse para me resgatar, eu não queria voltar para aquele mundo monocromático de metal, para aquelas pessoas monotônicas e mascaradas. Eu queria começar de novo! Queria começar do zero! Esquecer que um dia pertenci aquilo que chamavam vida e viver uma história verdadeiramente minha, uma história que não era metálica, mas era também de terra e matéria orgânica, era de brisa e de chuvisco, uma história de ardores e de mística, uma história que não teria um começo nem um fim, várias histórias!
Mas eu já estava metálico, parte de mim era metal e a minha parte que ainda era terra e madeira, não se identificava! Minha parte metálica, sem que eu mandasse se movia e me levava de volta para o castelo, não sabia como controlar aquilo o peso da minha contraparte orgânica era demais para a parte metálica carregar sozinha, a solução foi realmente me amputar, separar de vez o metal da matéria orgânica – será  que eu sobreviverei a isso? Pensei a princípio, mas minha parte metálica não precisava pensar, quase nunca pensava, e sem que eu mesmo ponderasse comigo, fui amputado!
Subitamente minha parte metálica tombou ao chão, ainda segurando minha parte orgânica e inerte ainda adormecida pela picada do escorpião. Nesse momento algo incrível acontecia comigo, eu sabia quem eu era. Eu era Eu! Não havia mais divisão! Não haviam consciências disputando atenção, ou controle, ou nada que fosse. Eu sabia o que queria e sabia como. Meu corpo inerte e vivo não era uma metade era uma integridade maior! Me dividindo definitivamente eu estava integrado com tudo, sabia o que queriam de mim, sabia o que eu queria do mundo.
        Eu precisava descansar um pouco e esperar o veneno do escorpião se diluir, eu soube que o melhor a fazer era aproveitar e me deleitar com o momento presente. Alívio, que as perspectivas viessem sem que eu as buscasse, que o futuro ficasse esquecido no passado em que eu não conseguia encontrar ávida que sempre esteve ao meu encalce!