quinta-feira, 17 de outubro de 2013

          Jamais haverá um herói que exista sem vilão... e de todas as vilanias talvez a pior seja a de viver na solidão.
          Sou um pássaro com raízes ou uma árvore alada?
          Que quimera atroz pode ser vista por tantas distancias
          Ainda assim, tão isolada?




CAPITULO VI
UM LAR, CHAMADO, PERIGO
Eu via claramente o desfiladeiro e todos os arredores eram interessantes e desafiadores, eu não queria nenhum, queria atrair o mundo ao meu mundo, agora tão orgânico e efêmero. Que injusto me senti ao desejar que tudo então viesse a mim. O que eu teria a oferecer a essa gente? O que eu teria? Eu jamais seria o mesmo e por tanto mais, não me reconheceria.
Tudo o que queria era construir um templo com minhas próprias mãos, usando as cinzas úmidas das esperanças infantis que cuidei como se fossem relíquias sagradas. Quis encontrar a Arte ardente de um Deus que eu não sou, que eu não conheço e que não me reconheceria.
O que eu sinto nada move, o que sinto me paralisa e consome. Mas para onde vou? Onde vai um homem cuja maldição o prende ao lugar que o amaldiçoou?
Tantos espasmos internos eram as palavras, bem ou mal, escritas em livro que jamais foi aberto, uma folha em branco que se queimou, cheia das ilustrações vagas de destinos imaginados, testemunhados pelas pedras que permaneceriam imóveis onde sempre estarão. Era Prometeu acorrentado empurrando uma pedra que permanecerá fixa no ponto onde o poder relegou. A única saída visível seria a fusão com a águia que beliscava seu fígado, sempre a regenerar-se. A que Deus deveria pedir o dom de tal fusão!? A quem orar nas horas em que o bem e o mal não fazem sentido? Um novo panteão deveria ser criado, ou relembrado por aquele que negou seu passado para encontrar um novo passado atávico, arquetípico!

O som de minhas palavras precisava ser ouvido... por quem? Eu não sabia. Não havia como saber... anoiteceu e nada foi dito. Mas havia luz, luz demais para apenas uma lua, eu não poderia me esconder na escuridão como antes, eu seria percebido e repetiria aquele ciclo irritante... mente... conhecido... eu estava certo, no céu haviam nove luas e eu não saberia mais voltar para casa.
Sem nada dizer, então, dei um passo rumo ao precipício! Mas eu não caí... o que exatamente aconteceu eu mais tarde saberia, naquele momento apenas senti terríveis asas de metal saindo de minhas costas nuas. Me suspendiam no ar insosso, eu me sabia, não era Ícaro, mas Dédallus errante sobre a luz de tantos luares brilhantes, como um sol ao meio dia, sem calor, sem fibras, apenas engrenagens que precisavam ser constantemente abastecidas.
Um novo lar surgia para mim, como num chamado por detrás de rochas feitas de brumas, era um ruído fantasmagórico vazando escorreito. Aproveitei minha translúcida presença e atravessei esses rochedos que não me levaram à Avalon, mas a uma cortina de fogo, um lar chamado Perigo que me aconchegaria em um insólito peito reluzente e articulado.
Ali eu planava na busca de um pouso que me permitisse voltar ao cume daquele pântano que deveria ebulir e fossilizar as cinzas, os sonhos, a pele antiga do dragão e os suspiros de uma garganta que não mais se fecharia.
Quem me visse diria que eu carregava os céus com minhas asas, e esse peso fatalmente derrubaria meu corpo cigano que não tinha jóias. Mas eu me sabia, ouvindo o zunido mântrico do vento que secava meus olhos, eu me sabia o mesmo cigano cuja dança e canto não são nada, senão desejo de viver.
Eu viveria a vida que me fosse entregue, eu viveria, mas não mais me apegaria, fosse a pele, o aço, a lança ou o arco. Não me entregaria ao desejo, nem o dominaria. Não lutaria mais com o tempo, mas inerte  não ficaria. A Morte seria a única constante a cantar com a Vida um estranho dueto que com nada deste mundo se pareceria.
      Meu coração voava comigo, suas asas índigo e vermelhas raramente seriam vistas por entre as folhagens que eu semearia por onde minha voz profunda fincaria raízes de esperanças infanto-senis. Nenhum espelho me refletiria, e o sol ao despontar nesse novo horizonte trazia uma escuridão nova antes desse desconhecido alvorecer. Onde pousar? Onde eu pousaria?

domingo, 30 de dezembro de 2012

"Dentro de mim eu quis me ver, tremia dobrado em dois sobre meu próprio poço... noite estranha de amor em que eu me goze e tenha... Lá no fundo do poço em que me espelho!"

       Seria mesmo possível prever o futuro em Cartas de Tarot?
       Seria mesmo tangível o sonho de um poeta ou o calor de um grande amor?
     A jornada não parece mais como um rastro de um animal ferido, e sim, como um céu mutável e incompreensível, sensível apenas aos corações e mentes abertos!

       Mais um fôlego! Mais divagações de um Dragão que não teme ser dissecado ou amado! Nada mais resta desses sonhos a não ser a Ação! O Drama que almeja ser explorado, que não pode ser reconhecido, mas pode ser compartilhado!

     "Os esqueletos de mil mariposas dormem em meu recinto" não eram borboletas, suas asas eram paralelas ao solo, sobre elas, as flores em sua eterna busca em direção à luz.



CAPITULO V
MINHAS ÚLTIMAS GOTAS D’ÁGUA

Meu corpo ainda estava dormente e eu não sabia bem como me movia. Não havia precisão nos meus movimentos, eu mal os sentia. Na verdade, sentia uma mistura nova de novos sentimentos, sabores que ainda não havia experimentado – como um picolé de mirtilo! No frenesi inconstante dessa experiência inusitada transformei meu antigo corpo metálico em uma carruagem de metal e enterrei todos os outros corpos ao meu redor, fiz suas covas em círculo ao redor de uma velha amiga árvore. Exaurido da picada, findei minhas forças nas 32 covas. Com calos nas mãos, queimado de sol, dei início ao primeiro dia de um ano que se chamaria, Trabalho.
No meio de um  florido findo campo de batalha, olhava ao redor a fim de encontrar uma direção, e não encontrava. Não haviam setas, nem mapas, nem rumores, nada que me motivava. Quedei-me ali pensando em todos os lugares que queria conhecer! Em todas as aventuras que poderia vivenciar e nos beijos que daria! Nos sonhos que teria! Nos desejos que... perdi vários anos divagando sem sair do lugar.
Quando num dia de chuva, a tormenta revelou um esqueleto de coruja que eu havia enterrado! Era a Coruja Profana! Que riu de mim,  agora dizendo: Ser ou não ser, eis a questão! Sem saber exatamente o que sentir, ri também! Que absurdo crânio de coruja me cita um fantasma paralítico de um bardo no meio da tempestade!? Dei as costas para a tormenta e disse a mim mesmo: “faça o seu pior”! Descalço e semi-nu, caminhei...!
Sim! Eu caminhei! Simples assim! Sem saber pra onde ou porquê! Eu comecei a caminhar! Sem perceber desci do monte Olimbo, descobrindo que existem flores como copo de leite e taça de vinho, que me despir pode ser uma arte, talvez um ofício, mas me vestir bem tem haver com carinho e não compromisso. Fui descobrindo que qualquer descoberta era uma porta aberta para uma aventura e que essas as aventuras  nem sempre me levavam a algum lugar, dependia se eu queria ir. E, que, por não saber o que queria eu ia pra qualquer lugar! Não necessariamente um lugar feliz!
Aprendi a abrir portas! E deixa-las abertas! E ri muito disso tudo! Muito me diverti! Até descobrir um novo padrão e nele me prendi, novamente parei, agora não mais inerte, mas em movimento, eu achava que estava indo mas não saí do lugar.
De tanto caminhar nos mesmo lugares, com decorações diferentes, amoleci a terra que virou pântano. Alagada com meu suor, lágrimas e sêmen, a terra se umidificava. O odor almiscarado me dava prazer e asco, eu gostava daquela sensação de poder e entrega, sentir o ranço pegajoso das caldas orgânicas nos seus mais profundos gozos! Eram as galas da luxúria que com suas lambidas me pregava sua cola saborosa! Que deleite! Que delícia! Sentia as ondas e os dedos que roçavam em minha pele. Eu soltava baforadas de neblina pelos olhos que diziam ne me quitte pas a toda miserável centelha de vida.
Realmente não sei por quanto tempo fiquei nesse pântano... Sei que minha carruagem de metal se danificou irremediavelmente, mas ainda era muito boa para viajar!


          Nesse mundo orgânico não havia espelhos e eu não tinha um referencial a não ser eu mesmo! Então a memória de mim dançou sobre a relva na forma de um guarda-chuva vermelho, debaixo daquela figura oriental estava Eu no meio de emoções cadentes e decadentes,  sem me molhar. O guarda-chuva me possibilitou ver cada uma de minhas mil faces nas gotas de chuva, mas as gotas não grudavam na minha pele. E vendo uma a uma das minhas faces eu pude retirá-las até a última que eu não encontrei, em nenhuma gota, até a última gota! 

           Chorei, como um menino! Lindo! Chorei de soluçar! Foi tão bonito! O Nariz escorrendo, inchado e vermelho! Que olhos mais brilhantes! E reluzentes, eu não vi... mas as flores e vermes que ali se moviam evoluíram comigo a mais um passo dessa jornada que eu chamava Perigo.



http://www.youtube.com/watch?v=8CkSd5oYi_U





domingo, 20 de novembro de 2011

E o tempo se desfez, mesmo nunca tendo existido!

O divertido de fazer esse blog sem pretenções é que posso experimentar a liberdade de ser honesto!
Esse capítulo eu escrevi logo em seguida do III... mas não publiquei porque ainda estava em dúvida sobre como continua-lo e não queria publicar algo sem continuidade e sem finalização... ME TRAÍ!... Porque o que aconteceu foi exatamente isso! Procrastinei e não escrevi nem publiquei mais do conto... e o tempo se desfez.
No entanto, tenho ganas de continuar a escrever e para continuar preciso abandonar os excessos, desapegar do já feito e seguir mais leve... o peso do passado me paralisa e exatamente agora me desvinculo dele, como um corcel que se solta da carruagem e matreiro escoiceia o ar! 
Segue-se o conto!


CAPITULO IV
EU ERA EU
A manhã despontava e um canto nostálgico de um pássaro raro ecoava timidamente perto de mim. Eu queria viver! Eu queria continuar! Eu queria sair dali! Mais do que nunca eu queria sobreviver e nunca mais voltar ao castelo! Eu não queria que ninguém do reino voltasse para me resgatar, eu não queria voltar para aquele mundo monocromático de metal, para aquelas pessoas monotônicas e mascaradas. Eu queria começar de novo! Queria começar do zero! Esquecer que um dia pertenci aquilo que chamavam vida e viver uma história verdadeiramente minha, uma história que não era metálica, mas era também de terra e matéria orgânica, era de brisa e de chuvisco, uma história de ardores e de mística, uma história que não teria um começo nem um fim, várias histórias!
Mas eu já estava metálico, parte de mim era metal e a minha parte que ainda era terra e madeira, não se identificava! Minha parte metálica, sem que eu mandasse se movia e me levava de volta para o castelo, não sabia como controlar aquilo o peso da minha contraparte orgânica era demais para a parte metálica carregar sozinha, a solução foi realmente me amputar, separar de vez o metal da matéria orgânica – será  que eu sobreviverei a isso? Pensei a princípio, mas minha parte metálica não precisava pensar, quase nunca pensava, e sem que eu mesmo ponderasse comigo, fui amputado!
Subitamente minha parte metálica tombou ao chão, ainda segurando minha parte orgânica e inerte ainda adormecida pela picada do escorpião. Nesse momento algo incrível acontecia comigo, eu sabia quem eu era. Eu era Eu! Não havia mais divisão! Não haviam consciências disputando atenção, ou controle, ou nada que fosse. Eu sabia o que queria e sabia como. Meu corpo inerte e vivo não era uma metade era uma integridade maior! Me dividindo definitivamente eu estava integrado com tudo, sabia o que queriam de mim, sabia o que eu queria do mundo.
        Eu precisava descansar um pouco e esperar o veneno do escorpião se diluir, eu soube que o melhor a fazer era aproveitar e me deleitar com o momento presente. Alívio, que as perspectivas viessem sem que eu as buscasse, que o futuro ficasse esquecido no passado em que eu não conseguia encontrar ávida que sempre esteve ao meu encalce!

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Pessoas Equivocadas - I

Inclusive eu provavelmente estou equivocado, mas me permitindo acreditar em um momento ínfimo de lucidez e discernimento.
Nos equivocamos em dizer eu te amo, ou em não dizer eu te amo?
Nos equivocamos quando apontamos o dedo ou quando não apontamos para nós mesmos?
Nos equivocamos quando desejamos tanto uma coisa que não enxergamos o que nos faz bem/felizes
Nos equivocamos quando por termos uma idéia sobre algo impedimos que esse algo nos surpreenda e assim perdemos nossa fé na vida
Nos equivocamos quando acreditamos que as forças externas são tão maiores que só nos cabe partir para o Combate, e esquecemos que nenhum combate transforma mais do que o amor.
Perdemos a fé no amor e damos a nossa mão para o medo, para intolerancia, para a violencia, para o COMBATE.

Eu jamais entraria em um Combate que não fosse por amor, qualquer outro motivo seria DESONRA!
Tanto se fala de Guerreiros!
Tanto se aprende a lutar, seja lutas marciais, seja o combate do dia a dia!
Tanto se valorizam os adjetivos de: O Guerreiro! O Herói! O Batalhador! O Lutador!...
Mas pouco ou NADA se sabe sobre o que é ser um Guerreiro, um Herói, Um Lutador...
Poucos sabem o que é uma Batalha REAL!
Elocubram sobre a força, o poder, o combate... mas não entendem que nada disso é fim em si mesmo, que para o verdadeiro Guerreiro, nada disso importa e o combate nunca foi uma escolha!
GUERREIROS NÃO ESCOLHEM O COMBATE, ELES EVITAM!
E quando a Batalha é NECESSÁRIA eles a abominam! E desejam nunca ter realizado isso.

Quem gosta de lutar, batalhar, combater é sempre o antagonista... o prazer em sofrer ou imputar sofrimento é DOENÇA!
Quem gosta de ser chamado de guerreiro, de batalhador, de herói, de lutador provavelmente nunca lutou, nunca batalhou... nunca experimentou a sensação de impotencia e abandono e teve que, SOZINHO, reaver algo a muito tempo perdido.
Estão equivocados quem acha que chamar o outro de guerreiro,  batalhador é um Elogio.
Dizer isso, para quem realmente o É, é uma forma de reacender a luz de uma lembrança desagradável de um momento em que era preciso, era necessário lutar.

"Muitos falam do Dragão, mas quando o Dragão aparece raros são os que o reconhecem, mais raros são os que compreendem, improváveis são os que ficam na presença do mesmo, único é aquele capaz de vence-lo"

sábado, 18 de dezembro de 2010

Mapeando...

Durante muito tempo, quis ser a montanha
Mal sabia que para chegar ao alto não precisava negar as asas
A ilusão de que a força estaria nas bases sólidas e não na capacidade de ser suave e leve

Ah! As pernas não são mais frágeis
Robustas, capazes de correr, mas não de voar!
O peito continua leve, impelido a abrír-se
Pernas de Rocha e peito de Vento!
Uma Quimera como outra qualquer cada dia mais
Dessignificado

Quis chegar até o topo da montanha
E lá...
Um vale, um lago, um deserto, um vulcão, uma cidade, um templo, o mar!
Daqui de cima vê-se tanto
Tanto para mapear

Nesse momento, ser cuidadoso e curioso
Preenchido pelo profundo ar da montanha
Contemplando o imenso horizonte que chama tantas vezes!
Ingênuamente mapear
com a tola pretensão de que eles serão os mesmos

Sabiamente para-se sentindo o prazer
Na montanha!
Em vão a vida mapear, tampouco os sentimentos

Aqui, chegar por apenas caminhar
Agora, cansado
Quando quiser novamente andar
Se um poço ou oasis chegar
Pode sempre ir

Mas mapeando se vive
Mapeando se sonha
Mapeando encontra-se um desejo de ir

Eu, vou aberto, disposto a encontrar novos lugares que passaram ilesos aos meus mapas!

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Apolo-gies!

Me desculpo pelas reticências! Mas vou evitá-las!
Ainda vivo essa imensa indefinição! Talvez devesse me contentar com ela e deixar essa louca atitude de querer ilimitar-me, mas isso eu não poderia desculpar!

Me desculpo pela ausência! Tem tantas pessoas exigindo de mim e demandando de mim que eu nem sequer tenho tempo para me reconhecer e conversar comigo! É possível que um dia eu me perca de mim, mas eu me encontro porque me amo.

Me desculpo principalmente por ainda não conseguir terminar um texto...um tecido... uma tapeçaria... talvez Penélope me entenda!

quinta-feira, 20 de maio de 2010

"Tudo o que está aqui está lá, o que não está aqui não está em lugar nenhum" Vishvasara Tantra

           Textos longos, muitas metáforas, não sou bom em agradar meus leitores... em tempos em que se não houver neon, luzes, roupas escalafobéticas, efeitos especiais e uma dança engraçada é difícil prestar atenção no que os outros dizem por mais de 3 min... eu prefiro permanecer em silêncio, talvez agora alguns dos que me conhecem entendam um pouco mais do meu Silêncio... Sem drama, estou feliz em compartilhar!
Aí está o 3o Capítulo.



CAPÍTULO III

O Encontro

          “Melhor impossível!” - bradou um outro cavaleiro do rei. A situação era desafiadora: a floresta, o castelo, a maldição, dizia o audaz cavaleiro ao rei, que era o momento dos cavalheiros mostrarem seu valor e ocuparem seu lugar na história!
          A empreitada foi monumental! Um exemplo único de organização, método, dedicação e presteza. Rapidamente os cavaleiros recrutaram e treinaram os cidadãos mais dispostos, organizaram o Departamento de Logística, conseguiram os meios e até um patrocínio de uma multinacional. No dia da partida à floresta houve uma cerimônia onde uma trovadora juvenil estimulou a comitiva com um espetáculo de magia e som, que me deixou extremamente desorientado e feliz! Eu estava novamente em estado de alegria e deslumbramento. Mas desta vez, eu iria para a floresta.
         Da mesma forma que o globo luminoso deixava seus cabelos escorregarem na face sinuosa da terra, a empreitada inexorável avançava para a floresta. O objetivo era enfrentar, seja lá o que houvesse naquela floresta, trazer as pedras para o castelo e viver feliz para sempre. Os meios eram abundantes e as estratégias estudadíssimas; a vitória, certa!
          Meu andar altivo me misturava com todos os outros. Mas diferente dos outros, não podia conter minha emoção em ver toda a exuberância que nos rodeava e por mais civilizado que fosse, o que se movia em mim era o desejo de me despir e roçar meus pêlos com os grãos da terra, tocar os troncos e me embevecer no néctar das flores.
          Tive vontade de compartilhar o que sentia, de ver nos olhos de meus iguais o espelho dos meus. Qual não foi minha emoção quando vi nos olhos dos mais próximos o olhar mais aberto - arregalado eu diria - e mais cego. Assim como eles eu agi, por muito tempo eu fui assim também, mas agora, que por um instante, parei para olhar, percebi o que eu era e não sou mais. Um medo me assolou velozmente, uma rajada de dúvida derrubou meu elmo e minhas pernas não souberam se iriam seguir nos sentidos da comitiva ou se iriam andar contra toda corrente, parei.
         Estacado no chão como uma árvore, fui tratado como tal, e não tardou para que um machado de Procrusto me acertasse o tronco, me levando ao chão. Consciente como um espectador silencioso eu percebi a comitiva passando sobre mim, essa sensação foi como trazer à lembrança a memória que nunca tive de não ter estado em Lethes. E divagando lucidamente sobre qual seria o número do calçado daqueles pés que me esmagavam, senti uma agulhada na base do pescoço, que estalou um choque em meu ombro direito, um pequeno escorpião com sua peçonha aguda havia me doado seu veneno e eu pude, depois de muito tempo, parar completamente.
          Silêncio e escuridão era o que havia, quando abri meus olhos ávidos da vulgar luz dos dias consumidos. Movi meu tronco, de pernas amputado, buscando desesperadamente algo conhecido, um lugar de conforto em que me apoiar, em vão. Nada daquilo fazia sentido para mim, eu era um nobre, um cavaleiro do rei, porque me amputaram, achataram e abandonaram?
         Devo ter perdido algumas horas criando teorias de conspiração em que todos eram culpados! Outras tantas criando desculpas santificadas que retiravam a culpa do mundo e colocava em mim - mea culpa – e quando o primeiro raio de sol tocou meus olhos e não se misturaram à lama que eu era, finalmente, me dei conta de que nisso tudo eu já não podia me apoiar, não havia amparo para mim. Nem lágrimas a chorar e ninguém que pudesse me ouvir, pois o veneno do escorpião anestesiara minha face e minha garganta. Era eu e apenas eu.

terça-feira, 4 de maio de 2010

TERCEIRA POSTAGEM - "Eu não tenho muito, quase nada, só a sombra do meu corpo sobre a estrada, misturada a galhos secos, eu não tenho becos, só perguntas. Minha alma e minha culpa dormem juntas"

Fiquei muito feliz com alguns comentários que recebi aqui pelo blog e pessoalmente. Quando digo que o comentario é importante para mim eu estou sendo sincero. Eles fazem um blog ter sentido, senão, continuaria escrevendo para mim e não publicaria...

Comentarei alguns comentários:

Tenho problemas com poemas que não possuem uma forma poética
R= Bom, acho que a forma poética é algo muito mais profundo do que rima e métrica, creio que está relacionado com níveis de significância e sonoridade, ritmo... enfim... Falando por mim, quando me proponho a escrever em verso eu estou atento à alguns segredos que guardo nessa forma... é como colocar pequenas pérolas onde não é óbvio, e somente aquele leitor mais curioso e apaixonado vai conseguir ir além do texto e suas palavras... é a forma ditando um pouco de conteúdo...

Não sinto a obrigatoriedade de ser feliz. Na vida tenho o que mereço, exatamente o peso e a mesma medida daquilo que ofereço é o que tenho de retorno (...) A felicidade é um vício que torna seus seguidores seres famintos e insaciáveis. EU sou e estou aqui.
 R= Talvez um problema aqui seja o conceito de Felicidade. Nunca imaginei que ser feliz fosse ficar o dia todo rindo e cantando musical em uma limosine comendo McDonnalds... mas para algumas pessoas é... Minha felicidade tem haver com sofrimento e dor, tem haver com descoberta e aventura, tem haver com trabalho duro, poesia, vida e morte... acho que tem mais haver com plenitude...
R=Quando à questão do "merecimento", acho que todo ser vivo não só MERECE, mas tem o DIREITO de se realizar plenamente, e só.
R= Bom... eu sempre fui viciado em algo... se for pra ser viciado então que seja em Felicidade então! Eu Assumo!

A vida realmente não se resume a um escritório e a uma única opção, ainda bem! hehe
R= Eu realmente não sei... e se resumir? E se isso bastar?? Sei que não basta pra mim... mas não consigo julgar as pessoas que estão satisfeitas com isso!

Tá reclamando de QUÊ???? Tens mais FOLGAS que trabalho,fins de semanas, escapadas noturnas,férias, feriados... E ainda tem tempo de FICAR ESCREVENDO EM BLOG!!!!????
 (...)às vezes tenho vontade de fazer, largar todos os meus empregos, e ir morar numa floresta, às margens de um rio... = )
(...)Nota miiill! no meu teste.  (...)
 R= Como dizer isso... eu assisti uma entrevista com a Elis Regina e em um trecho ela falava sobre "pessoas bacanas" ela disse algo como: pessoas bacanas são áquelas que você pode conversar olhando nos olhos. E que o problema das pessoas é uma questão de Ibope, o que é uma pena pq ngm vive de Ibope, essas pessoas esquecem que tem que comer, tem que vestir, tem que viver... pois é...

(...) e digo que consigo mudar o ângulo e até chutar o pai da barraca quando é necessário. (...)

 R= hehehe... sei que foi um erro de digitação (espero), mas achei muuuuito legal! Se eu fosse Freudiano eu diria que foi um "ato falho"... mas como não sou psicólogo e sim artista eu fico com a mágica que foi ler isso e entender o que meu amigo quis dizer e o que esse "erro" me sugeriu! Acho que é muito isso mesmo! Eu tow PUTO DA VIDA com esse "pai" (Cálice! de vinho tinto de sangue), esse Pai metafórico que é a minha maneira de entender essa necessidade de PROVER... prover meu sustento tem mesmo que ser tão dolorido? tem que ser sofrível assim?? Me lembra muito o Mito do Carvalho de Deméter... e da maldição de Adão... e acho que o Ser-humano já evoluiu bastante para não precisar ter que aceitar isso... mas aceita!! E isso é que não me faz sentido!... Evoluímos tanto tecnologicamente para termos uma vida mais "confortável" e ao invés disso nos tornamos mais dependentes e menos "humanos" passamos ainda mais tempo trabalhando do que vivendo e o nosso trabalho na grande maioira das vezes não nos dá prazer...os frutos dele sim, mas ele em si, Não! E isso não seria um problema grande se passássemos 4 horas trabalhando e 20 vivendo, só que na verdade é o contrário!... e isso não é só comigo é com 99% da população mundial...

(...) Agora sua responsabilidade é grande, precisa continuar escrevendo, pois de sua cura depende a cura de outra pessoa (...)
 R= Tenho pena da pessoa que está esperando essa "cura"... e que está dependendo de MIM! No fim de nossas vidas a única certeza é a de que estamos Sós! E como me disse uma velha bruxa certa vez: Pra mim você é um problema seu! (é muito libertador ouvir isso!! Hahaha) Aproveito e divulgo um curta brasileiro muito bom! Chama-se "Borralho"
Youtube Borralho – parte 1 - http://www.youtube.com/watch?v=Ejs437hKohY
Youtube Borralho – parte 2 http://www.youtube.com/watch?v=ueBPFs9sgmg


(...) creio que ja não haja forma de fugir deles, e talvez seja mesmo necessário toda essa pressão e até um pouco de angustia para deixar a vida mais temperada (...)
R= A intenção não é fugir deles, nem enfrentá-los... se trata de olhar para eles... e dar sentido!

(...)onde mora a felicidade??
R= Meu anjo... seja lá o que isso (felicidade) for... Só você pode saber onde!

(...)às vezes penso, estaria eu enganando as pessoas? (...) Será que sou tudo isso q falam? (...) Penso em salvar pelo menos o pedacinho de mundo em q vivo..Quero ser boa, mas a coruja profana q vive em mim me impede de agir com bondade e delicadeza
 R= Acho que a pergunta crucial seria: Você tem sido você mesma?... não importa muito as outras pessoas nessa hora... pq se vc estiver sendo sincera consigo. Não há o que se arrepender...
R= O mundo em que vc vive é o mesmo mundo com ou sem você... a Coruja Profana é só um dos símbolos conjurando um símbolo que te liberte ela a libertará!... inclusive dessa obrigação de ter que ser boa e delicada...

as vezes me sinto meio burra quando leio o q vc escreve ..pq nem sempre entendo de verdade o q vc quer dizer... mas aki ta um pouco mais facil eu acho..=]
 R= Não acho que seja burra... apenas esperta demais para cair na ilusão de que "entendeu o que eu quis dizer"... acho muito difícil que qualque pessoa que leia um texto poético entenda o que o autor quis dizer... eu ouvi uma entrevista com o Drummond falando sobre o tal poema da "pedra no caminho" e eu ria de chorar! A reporter falando sobre o que ele quis dizer e ele dizendo, eu disse que tinha uma pedra no caminho! só isso!... Eu acho lindo esse poder que a arte tem de ser arte, depois que ela foi criada ela não é mais do criador... esse texto que eu escrevi não é mais meu! É seu! O leitor! O que é que eu escrevi?? Eu preciso que VOCÊ me diga! porque eu sei o que eu quis escrever... mas o que eu fiz! Só quem sabe é você!! Por isso sou muitíssimo grato por ter lido! e Dado Vida à minha obra...


Num intindi nada. Cacete de texto difircil. Abstrato. ENfim, bom mas claro só pra quem tem uma mente muito aldaciosa e aqueles que partilham dos sentimentos.

R= Pois é colega, um sábio tira ensinamento até de uma pedra... um tolo pode ler o livro mais sábio e ainda sair vazio....
Audaciosa*
 
Peço desculpas pelas minhas palavras meio duras... mas eu sou meio bronco mesmo... e correndo o risco de parecer plagiador acho mais divertido CtrlC CtrlV o Bardo: (kkkkkkk.... isso ficou muuuuuito pedante!!!)

(Saem Oberon, Titânia e séqüito.)

PUCK - Se vos causamos enfado por sermos sombras, azado plano sugiro: é pensar que estivestes a sonhar; foi tudo mera visão no correr desta sessão. Senhoras e cavalheiros, não vos mostreis zombeteiros; se me quiserdes perdoar, melhor coisa hei de vos dar. Puck eu sou, honesto e bravo; se eu puder fugir do agravo da língua má da serpente, vereis que Puck não mente. Liberto, assim, dos apodos, eu digo boa-noite a todos. Se a mão me derdes, agora, vai Robim, alegre, embora.(Sai.)
(W. Shakespeare)

-------------------------O segundo Capitulo do tal Conto que estou escrevendo... espero que gostem!


CAPITULO II
Um Toque à Distância

             Na manhã seguinte o primeiro cavaleiro do rei foi dar à beira da floresta e com sua voz de trovão bradou, em resposta aos cantos que vazavam pela floresta, o mais límpido hino que pôde ser ouvido - os Cavaleiros do Ouro tinham o dom da oratória e não havia quem não se encantasse com tamanha eloqüência e acabasse concordando com eles. Assim que terminou seu discurso todos que o ouviram estavam sem palavras, não havia argumento capaz de contradizer lógica tão exata, a matemática de suas palavras envolta da forma mais que parnasiana não deixava espaço para dedução, indução ou sofisma algum.

             As vozes da floresta se calaram num silêncio dolorido e com o peso desse silêncio os grilhões que aprisionavam as faces nas paredes do castelo foram rompidos. Todas as facetas, antes amordaçadas, se libertaram, quebrando as paredes e os alicerces de rocha do castelo. Em um frenético bater de dentes, enlouquecidas começaram a falar tudo aquilo que era o não dito. Tudo o que era máscara e embuste, agora zanzava pelo castelo revelando, como um espelho, tudo o que era vedado. As máscaras lambiam a face e as coxas da gente civilizada enquanto o castelo ruía.

           Agindo de maneira pronta e abnegada as damas do castelo preencheram com seus pertences os espaços vazios dos alicerces que ruíam, todas as roupas e jóias das damas do castelo agora ocupava os espaços antes preenchidos de mentira, e assim, evitaram que o castelo desabasse.

           Estava claro que os argumentos da floresta não estavam sob o jugo da retórica e do pensamento racional, os nobres, é claro, suspeitavam disso, mas, como seguem o protocolo da Guerra Justa, escolheram usar o uso progressivo da força garantindo assim a pureza de seus brasões.

            Nos dias que se passaram pairava uma insegurança mordaz em todo o reino, algo havia sido tocado, ou melhor, remexido! O bravo cavaleiro de brado tão loquaz ficara mudo e catatônico, oscilava entre a gentil subserviência e a agressividade gratuita. As damas sem suas vestes e jóias tiveram que usar armaduras para não andarem despidas e a cada dia que passava se pareciam mais com os homens e executavam as funções dos homens com muita competência e destreza.

            As verdades estavam despidas da Santa Hipocrisia e andavam nuas pelas ruas, ninguém mais do reino cantava ou falava alto. Era difícil manter os olhos nos olhos da outra pessoa em uma conversa. Todo esse mal estar gerou nos cidadãos civilizados uma atitude constantemente defensiva, eles passaram a se comunicar através de frases prontas com respostas esperadas. Tinham tanto medo de serem revelados por suas máscaras que ao invés de usá-las estavam sendo por elas usados! Como que para apaziguar a boca errante e frenética de suas personas berrantes, se sujeitavam à chantagem delas e assim abdicavam de suas próprias experiências de vida, relegando preciosos momentos às suas máscaras estelionatárias.

           O Castelo ruía lentamente, e com ele o reino. Os nobres Cavaleiros estavam apreensivos, mas não poderiam demonstrar dúvida ou insegurança a despeito das faces faladoras, sentiam-se na obrigação de ser o exemplo e por isso não escutavam que seus joelhos estalavam e não notavam que toda a noite mordiam a si mesmos num bruxismo de angústia que todos desconheciam. À noite, enquanto dormiam, não estavam no controle, a dimensão do onírico e do mistério era o local onde os nobres cavaleiros não estavam no controle.

           O Rei precisava fazer algo a respeito de todos esses acontecimentos, e sozinho não podia fazê-lo, foi então que a racional Rainha, como a peça branca de xadrez sugeriu: era preciso estabelecer prioridades. O castelo não iria permanecer firme tendo como alicerces as roupas e as jóias das damas e nem fazia sentido toda aquela inversão de papéis com mulheres arquitetando guerras e homens fofocando da vida alheia. A grande tarefa era reconstruir a célula primordial do reino: o castelo! Havia um porém, as pedras para reconstruir o castelo só podiam ser encontradas dentro da Floresta.

sábado, 24 de abril de 2010

SEGUNDA POSTAGEM - "A Fênix, pássaro do sul, arranca o coração do peito de um forte animal do oriente" Frei Basile Valentin

               Sempre fui dado à poemas, mas mudar é preciso, viver não mais... Sei que guardo com carinho a lembrança dos suicidas que acima de tudo eram sinceros. Não é fácil encarar a si mesmo com franqueza, e não acho fraqueza sucumbir ao abismo insignificante que nos impuseram como: vida.
              Profundamente acredito que vida não se explica, não se define... apenas se exemplifica. Uma pena que a maioria dos exemplos tenham inspirado morte.
              Lembro do Neruda que vio lentamente pessoas morrerem, e, ao invés de se laçarem no abismo, definharam na expectativa de um dia que...!
              Lembro da Cecília em um livro post mortem me dizendo o que a disse um dia: Tu tens um medo! Acabar! Não vês que morre todos os dias... no amor, na dor, na dúvida, no desejo...
              E de quando eu era criança e brincava de matar as pessoas, para assim que elas renascessem eu pudesse amá-las de novo com o mesmo carinho e confiança.
              Creio que morri com aquela palavra, que morri com aquele olhar, que morri com aquela ausência e nem sei mais como era o meu primeiro corpo antes de morrer tantas vezes em um só dia.

              O TEXTO é um conto que escrevo - uma fantasia que despe a fantasia que eu uso no dia a dia - que é tão real como o abraço que eu dei nas pessoas que amo, que não sei dizer do começo, tampouco como e quando será o fim.


CAPÍTULO I

A Coruja Profana

       No dia que me abandonei eu era pura magia e esplendor. Brilhava em mim o sol dos vencedores e o ouro dos homens sábios que virtuosamente abdicaram de si mesmos em prol da própria glorificação. Eu era um deles, mais do que nunca fora em minha vida, eu era mais um que comungava daqueles ideais de sucesso e nobres sentimentos. Para além disso! Pairava sobre mim uma suave brisa que me dizia: Segurança.


       Eu disse, sim! Convicto do meu mais novo e brioso ideal. Um ideal limpinho e higiênico, que não polui e não ofende, que não choca os amigos da família e que finalmente iria me redimir, então eu poderia vestir as calças e com elas a gravata para que eu nunca esquecesse o nó que por vezes ainda me sufoca.

       Era óbvio, naquele instante, que o mundo havia me dito SIM, finamente, aquela aprovação pavorosa que eu tanto almejava me atingiu com seus delírios ébrios. E num élan de vitória a Coruja Profana de Atenas tocou meu braço direito e num rasante perfeito arrancou a chave que eu trazia tão soberbo junto às insígnias que eu nunca almejei.

       Naquele mesmo dia, dentro da mais densa floresta, apodrecia no pântano meu corpo de antes. Quando o abandonei ele ainda se esforçava em compreender e aceitar as pestes asquerosas que moravam na podridão e na baixeza. Dele, eu não tive notícia por anos, afinal, eu agora vivia das honrarias dos amantes do metal, um metal que reluzia ouro e que valia mais e mais a cada dia! Não tinha tempo de me ater às insignificâncias de floresta nenhuma.

       Estava sendo forjado no fogo da batalha, apesar de não ser feito de metal. Eu fui forjado ou mesmo talhado para caber na fôrma do sucesso. Que de fato não deixava dúvida de sua luz clara e resplandecente. Era o que eu queria e o que mais eu deveria então querer?

       Eu era a pura alegria, aquela destinada somente aos nobres, aos senhores cavaleiros que saíram das estrebarias e foram reinar ao lado das belas damas do castelo. Digna apenas aqueles que empunhariam suas espadas, seguros dos brasões em seus escudos, prontos para defender com a própria majestosa vida, o Graal Sagrado.

       Foi então que veio da antiga Floresta, que eu houvera esquecido, um canto profano que blasfemava contra toda a nobreza e honra dos áticos senhores de espadas douradas. As árvores da maldita floresta choravam as veias venosas das damas do castelo e por elas secavam seus troncos de sentirem uma pusilânime piedade para com essas belas mulheres civilizadas que sabiam muito da guerra e de si mesmas, mas que não entendiam absolutamente nada da terra.

       Quando o rei convocou seus bravos guerreiros para enviá-los à óbvia empreitada, o dia havia sido luminoso e pueril, as nuvens nem tocaram o celeste azul turquesa de Urano. Mas durante a reunião, os mais honrados se perderam em conversas sobre a maravilhosa vida que tinham e todas as fantásticas atrações que passara naquela última caravana. E quando ao entardecer o lilás se revelou no céu, bem no meio do laranja-avermelhado e do preto-azulado, estremeci. E não pude deixar de interromper as gentilezas dos nobres para dizer que o perigo estava próximo.

       Altivos como eram, fizeram pouco caso das minhas aborrecidas advertências e me deixaram de lado, deliciando-se com seus requintados e filantrópicos banquetes. Sempre houvera a suspeita de que eu seria um engano, por mais majestosos e nobres que meus atos fossem, pairava a suspeita que eu não fosse de metal. E por isso qualquer alquimia seria vã para enobrecer a mim. Mas éramos todos polidos demais para revelar certas faces que deviam ficar presas nas paredes do castelo.

       Naquela noite não pude dormir e pela janela de meu claustro pude ver que a lua tramava algo perverso, não saberia jamais prever ou decifrar o que era. Mas só podia ser algo perverso, pois delineando e engrandecendo seu corpo branco sinuoso pairava uma auréola que brilhava como o ouro do rei, mas era da cor escarlate, um vermelho tão profano que nem o sangue da mais nefasta monstruosidade poderia revelar.


sábado, 3 de abril de 2010

Triste para começar... mas é um começo... começo por uma ferida!

Tenho uma particular facilidade de falar das coisas que sinto através de poemas, não que seja uma maneira de esconder o que sinto, pelo contrário, as imagens que se formam com os sons e as formas fazem os níveis de significância se aproximarem mais do que seria a minha verdade.

Esse poema aconteceu em uma tarde de quarta-feira, por volta das 15horas, quando eu, no meio do meu expediente de trabalho, estava com a bunda dormente, a vista cansada e as mãos entrevadas de tanto tic e tac nas teclas. Repentinamente um raio de luz tocou minha cabeça, sem que eu percebesse, me levantei para abrir a janela, caminhei até a porta e senti o vento me empurrando para o mundo lá fora... a tarde era dourada e sedutora, as árvores cantavam melodias de heróis, só me faltava o cavalo, a espada e uma Aventura!...
...
Quisera eu! Me faltava a coragem de ser esse Herói!
Sufoquei meu ímpeto selvagem e medieval, sentei na cadeira para voltar a trabalhar, mas já não era possível, havia sido ferido por uma seta de luz que acertou minha cabeça... o poema saiu molhando meu rosto.
Quando foi exatamente que tiveram a idéia GENIAL de trocar a ordem das palavras na frase: "Eu trabalho pra viver", para "Eu vivo para trabalhar"? Esse cara deve ter ganhado um Nobel que nem o do Ford, o cara é um Gênio! Ele reinventou a escravidão e deixou ela tão bem maquiada que nem os trouxas do século 21 conseguem se perceber!! Acho Genial! ¬¬

É muita coragem viver uma vida pela metade, é muita coragem viver de migalhas, é muita coragem ser mais um covarde.
Ai vai o Poema:

Eu não tô Feliz

De vez em quando eu penso em largar tudo
Eu não tô feliz
Minha vida parece a luz artificial de uma lâmpada fria
Preenche os espaços
é forte que dói de olhar
Mas não aquece meu coração

Essa luz ilumina tudo que está aqui dentro
Dentro dessa sala onde o ar é pouco
E a respiração é curta

De vez em quando eu abro uma janela
Uma porta
e deixo vento correr livre
E isso me traz paz
Me faz quase feliz

Quase feliz é o lugar mais perigoso

Quando vai acontecer de eu ir lá fora?
E ficar à mercê da luz escaldante do sol!
Ficar aberto às intepéries da natureza
Da minha própria natureza... que não é artificial!

Meu medo amarra minhas pernas nessa cadeira de escritório
e o peso dessa mesa cheia de papéis
Parece tão maior que eu
Quando os papéis de cifras me fizeram escravo?
Já duvido da minha própria felicidade
E se isso não é loucura eu também já não sei do que se trata

A verdade é que eu sou bem feliz
Embora eu saiba que o que eu faço não me deixa feliz sempre
Eu sei onde mora a felicidade
E vivo das migalhas tiradas em fins de semana
Escapadas noturnas
Férias e feriados
olhares furtivos
Casquinhas de felicidades que sobraram na mesa